Sexta-feira, 9 de Março de 2012

O que se passa com este homem?


Absolutamente inoportuno o espetáculo de rua que o Presidente da República montou de novo em torno da sua figura. Já não bastam os dedos das duas mãos pra contar os seus “casos”, situação que por si só é profundamente triste e deprimente. Num tempo de inusitadas dificuldades sociais e económicas (de amplos desafios, também), entretém-se ele a dar tiros para o ar, a semear gafes, anulando (esvaziando pelo menos) a substância prática e abstata do cargo que ocupa. Aníbal Cavaco Silva vem criando, com efeito, um pessoalíssimo anedotário, a partir da fácil equação de silenciar-se quando devia falar e falar quando mais valia estar calado!

Não discuto as razões que lhe assistem ou não assistem na querela com o ex-Primeiro-Ministro. Simplesmente, devia (por uma vez) ter usado da dignidade e privilégios previstos pela Constituição relativamente ao magistério de Chefe de Estado, que é o seu. Se Sócrates era a pessoa que afirma ser (pessoa política, claro está), então o Presidente da República tivesse-o demitido! Vir agora acertar contas e lavar roupa suja, nos moldes sorrateiros em que o faz, é tarefa mal coincidente com o aprumo democrático e exemplaridade moral que se lhe exigem. Pior: acusar Sócrates, quando este se encontra retirado da cena política, soa a vendeta covarde e lembra o discurso vingativo da noite da sua reeleição.

Nunca apreciei o estilo de José Sócrates. Não guardo saudades da sua governação, nem boas recodações do tom crispado e despótico com os seus ministros respondiam pelos atos de uma legislatura desastrosa e desalivanhada. Pode até ser que o Presidente tenha razão. Mas ninguém entende o tempo e o porquê desta guerrilha, agora. A Direita assobia e esfrega as mãos. Lá nisso Cavaco faz um bom trabalho: quando a coisa é a doer e a coligação precisa de um entertainer, lá ele reaparece dos fundos da cave onde vive, para assombrar a nação com intervenções tragicómicas, que não fazem rir de lamentáveis, nem chorar de ridículas.

Caso é que se pergunte se este homem não tem assessores, alguém que lhe diga, à puridade, na maior discrição, que uma coisa é ser presidente, outro faxineiro de lavandaria…

Quinta-feira, 8 de Março de 2012

Dia Internacional da Mulher

















Convencionou-se o dia 8 de março. Podia ser o dia 7 ou o dia 9, de qualquer mês, aliás. Porque as mulheres dispensam essa efeméride e exigem o que o mundo vai negando: respeito. Respeito e igualdade. Igualdade e Respeito. Dignidade.

Em Portugal, o caso é que ainda se morre à maneira antiga, à boa maneira do tempo dos Afonsos e dos Joães, à maneira bárbara dos punhos e dos cintos, das pistolas e dos garrotes. Digamos, à maneira portuguesa…

O caso é que estamos em 2012 falando de tortura e assassínio, de inoperância judicial e indiferença policial. Estamos falando de medo e perseguição. Estamos falando de violência extrema, impunidade e conivência. Estamos falando de notícias frescas, renovadas, senão todos os dias, semanalmente. Nalgumas situações, crimes perfeitamente previsíveis e sinalizados em tudo quanto é comissão, autoridade e tribunais. Debalde. Os números lá vão disparando, senão todos os dias, semanalmente pelo menos.

E à violência doméstica junta-se a discriminação social. A mulher que é prostituta, porque se divorciou. A mulher que é uma desenvergonhada porque ousou. A mulher que é má mãe, porque transigiu. A mulher que é péssima mãe, porque bateu o pé. A mulher que trabalha mais em casa, porque lhe compete. A mulher que ganha menos no escritório e na fábrica, porque é mulher. A mulher que é ridícula, porque pensou. A mulher que é besta, porque acertou. A mulher que é uma delambida, porque liderou. A mulher que é frouxa, porque perdoou. A mulher que é uma ordinária, porque pôs os pontos nos is e disciplinou…

Lá nisso tive uma boa escola. Aos cinco anos já fazia a cama, como aos dez passava a ferro. Limpar a casa de banho ou fazer de comer nunca foram tarefas exclusivas de sexo, e levantar a mesa é tarefa tão de uns como de outros. Do mesmo modo, quando foi preciso (e viu-o muitas vezes), também a minha mãe pegou numa enxada e numa pá e num balde de cimento. Tive uma boa escola, na qual a democrática distribuição de papéis passava não pela vergonha possível, mas pela entreajuda provável. Obrigado, mãe!

Fazer o laudatório das mulheres não me parece bem, só porque hoje se assinala o Dia Internacional da Mulher. Parece-me ótimo, porém, porque estou habituado a lidar com o seu modo de pensar que, fundamentalmente, é o mesmo do modo de pensar dos homens (não sei porque carga de água se criou este mito de modos de pensar por género) e porque aprendi a respeitar diferenças e semelhanças: três irmãs e uma mãe laboriosa chegaram para tanto.

Devo acrescentar que nem todas as mulheres são geniais e fantásticas. Mas quase todas as que conheço o são, ou foram, nalgum momento das suas (nossas) vidas. Nem todas merecem o meu aplauso (perderam-no aquelas que tomam dos homens as virtudes machistas, que há as também machistas). Nem todas são o exemplo da feminilidade. E nesta última palavra não interpreto qualquer menosprezo, antes pelo contrário.

Trabalho maioritariamente com colegas, aprendi maioritariamente com professoras, convivo maioritariamente com mulheres. Leio as poetas com um misto de sedução e de inveja. A mesma inveja e sedução que me levam a respeitar as Aung San Suu Kyi de todo o mundo, as Anna Akhmatova, as Maria da Fonte, para ser mais comezinho…

Nem todas merecem o meu aplauso, mas muitas merecem-no, como mo mereceram. Não vale a pena explicar porque se ama uma mãe, uma irmã, uma namorada, uma poeta ou uma líder incontestada. Ama-se pelo carisma, pela mistura indelével de domínio e dominação, carinho e autoridade. E é por isso que me indigno facilmente com duas coisas: com as mulheres que o não são, e com os homens que maltratam as mulheres… Uns e outros não sabem o que vale cada sexo, nem que forte e fraco é outro mito, nascido da ignorância e da profunda estupidez!

Domingo, 19 de Fevereiro de 2012

O facebook














Volta e meia apetece desligar-me do facebook. Não é uma decisão fácil. Implica um silêncio incómodo, um fim precoce, como todos os fins deliberados. Mas é, ao mesmo tempo, a expressão de uma raiva e o fim de uma sinistra hipocrisia, que me traz atado a um cento de rostos (aliás, dois centos), pessoas que respeito, que conheço nalguns casos, que me ensinaram qualquer coisa. Mas que estão rotulados pelo sistema como “amigos” e que não dizem uma palavra, não expressam um sentimento, não gritam, não esperneiam, não tossem, não batem com o punho em cima da mesa, não se indignam comigo, não se exaltam, não partilham uma dor, não se solidarizam com uma piscadela de olho… Raio de “amigos”…

Volta e meia renasce este sentimento. E não é pelo facebook. É pela insídia de me ter deixado ir pelas americanices que fazem da nossa vida um laboratório de experiências, pelas palermices que pretendem substituir-nos à doce e vívida sensação de irmos pela rua adiante e cumprimentarmos com um aperto de mão, ou dois beijinhos, os amigos e os conhecidos… O facebook é uma treta e mesmo o mais viciado dos meus “amigos” o reconhecerá facilmente. Uma treta perigosa, porque como o fogo, não tem nenhuma escapatória de emergência para os sentimentos que urde em suas mãos invisíveis de curandeiro. E um tipo sai da arena muita vez pensando em como isto não para mim, mas insatisfeito da retaliação que não operou, desejoso de uma paga, esperança numa desfeita. O facebook é uma coisa com gente dentro e isso é bastante, mesmo que gente calada (nalgumas casos embalsamada), mesmo que gente muda e quieta como uma brinquedo dentro da caixa. E isso basta!

Volta e meia ando nas definições e chego perto do abismo. Apetece dar o passo. O suicidário gesto impõe-se como estar no alto de uma montanha rodeada de nuvens (lembro-me sempre dos óleos de David Caspar Friedrich) e cair por ali abaixo. Seria uma paz. Mas o sistema defende-se. Como toda a bactéria, o sistema opõe-se a toda e qualquer emancipação do indivíduo. O sistema quer-nos presos pela corda. O sistema joga mais uma vez com os sentimentos que não tem, diz-nos que os amigos vão sentir a nossa falta, escolhe meia dúzia de rostos sorridentes para o provar, o sistema esboça um “oh” pungente. O sistema tira partido da nossa crença no homem e na humanidade. E um indivíduo volta ao convívio do todo, aceita mais um “pedido de amizade”, escreve mais duas ou três tretas reconciliadoras. Um indivíduo disfarça o azedume, reentra no grande armazém das ideias preconcebidas e aceita vestir de novo o fato-macaco despido na pressa da sua revolta anterior. Um indivíduo está aí de novo, comungando o paraíso artificial desta grande casa triste, que somos nós todos, amestrados pela rede e pelos oficiais da “amizade”.

Enquanto isto, enquanto a rede nos aperta os pulsos, vão os velhos morrendo sozinhos (alguns estão mortos neste momento já, há um par de anos, nós é que não sabemos ainda que estão — amanhã ou depois, as notícias farão questão de no-lo relembrar). Enquanto isto, os miúdos crescem e fogem-nos da vida. Deixaram de ter quem os acompanhem à pesca ou aos montes, aos grilos. Enquanto isso, a vizinha á, ou o vizinho bê, têm cancro e nós não sabemos (ou talvez saibamos, mas não podemos fazer nada). Enquanto isto, o Fonseca foi despedido da fábrica de azulejos, e a Dona Augusta perdeu um filho em Andorra, numas obras. Mas eles ficam bem. O mal passa. É só uma questão de tempo. Enquanto isto, vamo-nos tornando avatares de um egoísmo desmedido e assombroso, merecedor do olho punitivo das Fúrias. 

Enquanto isto, nós e os nossos “amigos”, o que fazemos? Lemo-nos e esbanjamos “gostos”… É uma possibilidade! Podemos sempre deixar-nos apodrecer nas veias podres de uma sociedade postiça, internetizada, voltada para o umbigo mais que todas as que a precederam. Ou podemos ir às definições da coisa e implodi-la, como todos os dementes que ousaram atacar as fundações dos grandes impérios. Podemos… Felizmente, esta é a grande época do poder e nós podemos! Abençoado seja Mark Zuckerberg, o profeta!

Domingo, 5 de Fevereiro de 2012

A qualidade da democracia em Portugal















Volta e meia os relatórios desta ou daquela organização internacional publicam rankings e incluem a bel-prazer estatísticas que ora sobem, ora baixam a qualidade democrática dos quase todos os países do mundo. Um deles, recente, da Economist Intelligence Unit, coloca-nos na modesta 27ª posição, atrás de Cabo Verde por exemplo, e num nível a que chama de «Democracia Imperfeita», segundo patamar de uma escala que se estende da «Democracia Plena» aos «Regimes Autoritários».

Um outro estudo, este publicado caseiramente pelo Público (em 19 de janeiro último) diz que, escrutinada a população nacional, 56% dos portugueses consideram “a democracia preferível a qualquer outra forma de governo”, ao passo que 15% concordam que “nalgumas circunstâncias, um governo autoritário é preferível a um sistema democrático”.

Sinais da crise? Não. Não apenas. Sinais de uma democracia que nunca tendo sido “plena” desencantou os portugueses e vai desencantando muitos mais, a ponto de elegerem Salazar como figura providencial da nação («o maior português de sempre»). Pior: esta «democracia imperfeita» vai sendo culpada pelo relativo desinteresse dos portugueses em casos de absoluta falta de transparência e grosseira intromissão do Estado em assuntos da vida privada e vice-versa, como sucede (ninguém tem dúvidas) com o programa de Pedro Rosa Mendes.

A sofisticação desta intromissão é indesmentível. A Miguel Relvas (e pelos vistos a Pedro Passos Coelho) basta a certeza de que o programa «Este Tempo» tinha término agendado para o final do mês de janeiro. É uma bela coincidência, daquelas que já a máquina Sócrates aproveitava para derrubar obstáculos, mas não cola. Porque a coincidência, como a faca de dois gumes, tem duas leituras possíveis e a que convém ao governo não dissipa as dúvidas de quem, como eu, viu as grelhas de programação dos vários canais de rádio serem mexidas por causa dos novos inquilinos em São Bento: porque acabaram com o «Alma Nostra» de Carlos Magno e Carlos Amaral Dias na Antena 1? Outra coincidência?

De uma maneira geral, assisto com náusea aos programas que escolheram para encher as horas mortas dos ditos canais públicos de radio e televisão: programas de variedades, de revista à portuguesa, programas de fado, concursos idiotas, galas em honra deste ou daquele, futebol… Só tem faltado a missa… E isto não o devem os portugueses ao PSD ou ao PS, porque se Passos Coelho vai tendo os seus Rosa Mendes, Sócrates teve os seus Charruas. Isto devemo-lo à tísica democracia que deixámos que tomasse conta das nossas vidas e nos empurrasse para o mais lamentável ato de nela participarmos: autocensurando-nos!

Creio bem que os portugueses precisam de acordar. E quando o digo, digo-o com a consciência plena de intenção: o sono deste povo é a melhor ocasião para os oportunistas, para os carreiristas, para os mentirosos, para os malformados, para os indivíduos que nos impingem regras cretinas, para as autoridades que nos esfolam o couro e para todos aqueles que nas nossas costas se riem da «santa ignorância dos pobrezinhos».

Ontem, numa Rússia vinte graus a baixo de zero, cerca de 30 mil homens e mulheres ousaram chamar «Ladrão» e «Vigarista» a Putin, o todo poderoso! Talvez em Portugal precisemos de fazer o mesmo e pelos mesmos motivos, independentemente da cor rosa ou laranja que nos governe. Porque, e isto é uma nota de rodapé, precisamos todos de ser cada vez mais apartidários e cada vez mais políticos!