Tenho há coisa de um ano a esta parte uma máquina de café, comprada num hipermercado do grupo Jerónimo Martins. É um bom aparelho, prático e muito eficiente, cujas cápsulas têm obrigatoriamente de ser adquiridas no mesmo sítio de onde veio a máquina. Isto causou a princípio uma certa confusão mental, porque o boicote defendido por alguns deputados (da ala da coligação governamental à oposição) aos produtos desse mesmo grupo económico — falou-se em os portugueses saberem “tirar ilações”) me trouxe a perspetiva de um fim antecipado de um dos meus melhores eletrodomésticos.
Entretanto, ontem, quando dei um pulo ao dito mercado (porque se me acabara o café), desconfiado de que me portava muitíssimo mal, cúmplice de antipatriotas e chico-espertos, recebi das mãos de um expedito funcionário um «Esclarecimento aos nossos clientes», que em três pontos sintetiza a indignação de Pedro Soares dos Santos, Administrador-Delegado da Jerónimo Martins SGPS, S.A., em relação às “inverdades” que se difundiram quanto ao cumprimento das obrigações fiscais do grupo. O «Esclarecimento» diz que a sede social e residência fiscal do Pingo Doce se mantêm, “como sempre em Portugal e [que] nunca a sua alteração esteve em causa”. Diz também que “As obrigações sociais e fiscais do Pingo Doce para com o Estado português e os seus cidadãos continuarão a ser honradas como sempre foram, não havendo qualquer alteração ao nível do pagamento em Portugal dos impostos devidos”.
Profundamente aliviado, seguro de não caíra na condição de contrabandista, refleti com indignação que as “inverdades” se generalizam neste país pequenino, boatos, mentiras, calúnias, ditos e espalhados até, imagine-se, pela boca dos nossos deputados, esse escol a quem providenciamos os nossos destinos e cuja integridade moral (aqui e ali chamuscada por complicados escândalos) vai de vento em popa. Afinal, o grupo Jerónimo Martins não fez nada de errado em pôr-se a milhas para os Países Baixos (eu fazia o mesmo, se pudesse) e em trocar os malmequeres singelos dos nossos campos pelas estupendas túlipas holandesas. Tudo calúnia, senhoras e senhores!
Entretanto, volto aos deputados da República Portuguesa. Têm suas excelências apregoado solidariedade, em nome da nação. Primeiro limparam-nos os subsídios e carregaram-nos com taxas, cobranças, impostos… Tudo a bem da nação e nada contra ela, diria Salazar. Mas, senhores e senhoras, abdicaram suas excelências (a bem da nação e em solidariedade com todos aqueles que se esfalfam pelo crescimento do país) dos respetivos subsídios para 2012? Abdicam livremente, suas excelências, das ajudas de custo e das regalias que lhes conferem o cargo de representantes do povo? Esta é aquela parte em que o boneco do Rafael Bordalo Pinheiro aparece e me responde com um categórico gesto de braços?
A verdade é que o país é trafulha! Conhecem a palavra? Pois, é isso o que o país é, trafulha! Todos sabemos que os senhores deputados, secretários de estado, ministros, altos dignatários e presidente não se misturam realmente com o povo. Não frequentam os mesmos hospitais, como não frequentaram as mesmas escolas. Não sentem remorsos nem podiam. Convenhamos, o que significa o macrossistema dos serviços públicos, quando suas excelências têm ao dispor os melhores hospitais e clínicas privadas, os melhores colégios, as melhores relações, os melhores seguros de saúde (e de vida), a melhor proteção que o sistema hipócrita lhes pode garantir?
Enquanto bradam no hemiciclo contra a atitude da Jerónimo Martins, as senhoras e senhores deputados acumulam subvenções, aquilatam influências, esmagam o alforge do Estado com todo o tipo de negociatas privadas… E isto tão à luz do dia que só pode parecer podre um tal país, que assim o permite e que fecha os olhos às evidências.
A verdade é que nem posso levar muito a sério este «Esclarecimento» da Jerónimo Martins. Cada qual faz o que pode para salvaguardar os interesses. E nem sequer estamos a falar de uma dessas brutais deslocalizações de empresas, tão habituais por cá, que lançam de um momento para o outro e para o desemprego centenas de operários… Nem sequer estamos a falar de BPNs ou BPPs, que nos arruinaram iniquamente e sem que tenha acontecido nada de substancial aos prevaricadores… Nem sequer estamos a falar da gestão ruinosa de uma das muitas empresas públicas, que num ápice tenham queimado milhões aos cofres das Finanças… Estamos a falar de uma empresa, que decidiu não compactuar com a sobretaxação de mais-valias imposta pelo Governo, isto um país que é todo ele neste momento uma nódoa e que perdeu a única coisa que lhe podia restar ainda, vistas as coisas: a vergonha na cara!
