Sexta-feira, 13 de Janeiro de 2012

Coelho e Portas, nomeações e silêncio, antes e agora…



















Passos Coelho, o Primeiro-Ministro da República Portuguesa, explicou-se. Explicou-se explicando aos portugueses que não perguntou a filiação partidária a nenhum dos 235 nomeados no último mês para cargos públicos. E fez bem. Se o perguntasse, por exemplo, a Manuel Frexes, Presidente da Câmara do Fundão, ficaria surpreendido… Fez como o outro, o que tapava os olhos quando levava o copo à boca… vinho nem vê-lo!

No tocante a nomeações de outra espécie, as de topo, as que promanam de parcerias público-privadas, o Primeiro-Ministro mantém a mesma fleuma de homem honesto. Afirma que “o Governo não interferiu nem direta nem indiretamente nas escolhas que  os acionistas privados da EDP fizeram para o futuro Conselho Geral e de  Supervisão ou para o Conselho de Administração". 

Claro que não: nem foi preciso. Num passe de mágica saltou um Catroga da cartola para presidente do Conselho de Supervisão da EDP, de resto um ilustre desconhecido, cujas ligações ao PSD e ao próprio chefe do Executivo são, como se sabe, inexistentes…

Por estes dias, quem anda muito calado é Portas. O país é esventrado pela gatunice, pela criminalidade violenta, por gangues e criminosos de toda a espécie e feitio… E o que diz ele? Nada! Lembrar-se-á o Ministro do Estado e dos Negócios Estrangeiros dos inflamados discursos que proferiu na Assembleia da República contra a falta de condições de trabalho e de segurança dos operacionais da PSP e GNR? Onde está o velho Portas do sarcasmo e dos fatos às riscas, agora que esquadras de norte a sul ameaçam ficar inoperacionais, por não possuírem viaturas de serviço minimamente funcionais?

E já agora, quem se recorda de Portas a bradar aos sete céus contra o abandono a que são sujeitos os idosos, em matéria de cuidados básicos de saúde e reformas? O que disse Portas, entretanto, sobre os aumentos nas taxas moderadoras, ou sobre o agravamento do custo dos medicamentos, ou quanto à subida do preço de bens essenciais? O que protesta Portas relativamente à vergonhosa gestão da ANACOM do fim da televisão analógica no país, cujo apagão afetará em primeiríssimo lugar (justamente) os idosos? 

E por que não há duas sem três, aqui vai: quem não se lembra do autopropalado defensor da agricultura, em mangas de camisa, a vender o seu peixe em feiras, feirinhas e feiras da ladra, deplorando a falta de incentivos e de apoios à “lavoura” (o então deputado Paulo Portas preferia esta carinhosa palavra à convencional “agricultura” da sua Assunção Cristas), a falta de competitividade das nossas explorações, o escoamento deficiente dos produtos nacionais? Onde está Portas, afinal?

E já agora? Que diz Portas às polémicas nomeações do seu chefe de governo? Obviamente nada! Cala e come — se não for mais, come dos restos das panelas e dos tachos!

Pois senhores, este bluff é tão rançoso como o país que o aceita, protela e sustenta. Para termos uma ideia, tão rançoso como a carne depositada na arca frigorífica dos restaurantes chineses. Ou, mais até, como as opiniões da Sra. Dra. Manuela Ferreira Leite… Tal e qual: um bluff serôdio, atávico, estúpido, intolerável de mais para caber num mundo como o nosso, onde o normal seria o comum cidadão dar-se conta de que o estão a aldrabar e sair para a rua, com os testos a chocalhar estridentemente até que os políticos calassem de vez a retórica e a mentira. O normal seria o país votar massivamente em branco nas eleições, dando a única lição de democracia ainda possível pelo voto: a rejeição do sistema!

Pedro Passos Coelho como Sócrates antes de si, como Barroso, Guterres ou Cavaco, partilha os mesmos tiques, a mesma verborreia, a mesmíssima falta de seriedade, a mesmíssima culinária verbal e imaginativa que faz da cena política nacional a bruta cáfila, já denunciada em pleno século XIX por Eça, a mesma raça pusilânime de mentirosos que acreditam em tudo menos na sacrossanta verdade. 

Houve quem tivesse acreditado piamente no atual Primeiro-Ministro, quem o houvesse julgado D. Sebastião ou o próprio Messias…

Indigitar um autarca para o conselho de administração da Águas de Portugal, quando mantém uma dívida de cerca de 7,5 milhões de euros à mesma empresa (haja ela sido contestada ou não) é algo surreal, vergonhoso, podre… até mesmo para uma nação habituada a tudo, como a nossa!