Terça-feira, 24 de Janeiro de 2012

As “cavacadas” de Cavaco













Aníbal Cavaco Silva foi reeleito Presidente da República fez ontem (dia 23) um ano. O tempo passa e o PR lá vai inscrevendo devagar o seu nome na História, devagar e aos tropeções, naquilo que os vindouros hão de chamar “penumbra presidencial”, pautada por gafes, contradições, equívocos grosseiros, inconveniências e, sobretudo, falta de carisma. Cavaco não é (nunca foi) no tradicional sentido dos termos líder ou soberano da nação. Cavaco serviu. Cavaco é o fruto do momento, das carambolas político-partidárias. Calhou-nos.

As famigeradas declarações por si proferidas na sexta-feira passada a propósito dos seus rendimentos e periclitantes economias domésticas vieram recordar aos portugueses o cunho desgraçadista da maior das intervenções da sua lavra, quase sempre pitorescas, quase sempre a lembrar o queixume salazarista. Cavaco, por muito que o procurem defender os amigos, ofendeu enormemente o povo de que diz ser “provedor”. E ofendeu-o porque o povo de que diz ser “provedor” passa mal. O povo que diz representar não tem ajudas de custo, nem reformas triplicadas. O povo que Aníbal Cavaco Silva exortou a encarar com estoicismo a crise bateu no fundo, suicida-se, perde a casa e o emprego, não tem dinheiro para pagar a ambulância ou a consulta no IPO. O povo de Cavaco está nas lonas e, ao invés de Sua Excelência, que “põe de lado algum todos os meses”, não poupa, nem muito nem pouco, porque o povo de Cavaco é sardinha na lata e Cavaco é tubarão …

Pessoalmente, desgosta-me este Presidente da República. Não aceito o modo ziguezagueante como se dirige ao país e como encara o seu papel de primeira figura do aparelho de estado. Não lhe aprecio o génio bipolar, umas vezes excessivamente passivo e tolerante (com Alberto João Jardim, por exemplo), outras persecutório e incapaz da objetividade devida ao lugar para que foi sufragado (como com Carlos César, por exemplo). Cavaco ensarilha-se nos equívocos mais estapafúrdios (em trapalhadas que muito recordam a amiga Ferreira Leite). Cavaco excita-se em posições que são um-nem-são-nem-deixam-de-ser, meios-termos de pessoa sem personalidade ou de personalidade débil (como tão bem o corroboram o caso do seu antigo assessor, Fernando Lima; ou a meia posição assumida contra o corte dos subsídios ditado pelo governo de Passos Coelho).

O Presidente, que na História ficará como o Primeiro-Ministro dos milhões desperdiçados da CEE, queixa-se do estado a que chegou o país, da máquina monstruosa que debulha os cofres públicos, da falta de rentabilidade e de competitividade da nossa economia. O economista Cavaco (quando todos precisávamos do estadista) tem a memória hipócrita dos maus governantes. O país que somos é, em grande medida, herdeiro do país que Cavaco fundou, do despesismo que Cavaco pôs em marcha, do novo-riquismo que Cavaco protegeu, da leveza insustentável que Cavaco insuflou, do dinheiro fácil que Cavaco semeou e fez sonhar. Cavaco é o pai disto; é-o pelo menos na mesma escala de Sócrates, de Barroso ou de Guterres. E é por essa razão que me causa urticária ouvir-lhe os sermões em direto, ou os discursos programáticos dos 25 de abril e dos 5 de outubro. Na sua essência, este Presidente da República não tem justificado o cargo. Desde a sua primeira vitória em 2006, é-me difícil elencar uma boa meia dúzia de mais-valias que a sua eleição trouxe para o depauperado Portugal contemporâneo. Cavaco é, acima de tudo, autor de bacoradas de alto nível, patrono de “cavacadas” que vêm escavacando a imagem séria do presidencialismo republicano.

Mas pior que isso, Cavaco é, desde a passada sexta-feira, o insensível presidente que brinca com fogo, quando o país resiste ao clima incendiário que as medidas do governo querem deflagrar. Depois da vergonhosa diferenciação protagonizada, em matéria de sacrifícios, pelo Banco de Portugal (cujos funcionários, espantemo-nos, já receberam o subsídio de férias), a derradeira cavacada do Presidente da República não pode ser pesada senão como um acinte. Chamem-lhe gafe, palavras infelizes, precipitação. Por brincadeiras semelhantes tomaram os franceses a Bastilha e descabeçaram o rei. Por brincadeiras semelhantes, não necessariamente iguais. Mas o país desta vez não lhe perdoou. A julgar pela onda espontânea e inusitada de críticos, talvez seja desta que Cavaco perceba que o povo quer mais de si, quer um Presidente, quer um Chefe de Estado, quer um Provedor. A julgar pelo coro de indignação, Cavaco deve ter percebido desta feita que o tempo dos bons palermas acabou e que ocupar o tempo a enviar recados por facebook não é (nem nunca foi) sinónimo do destino providencial de Belém!