2011 está vai não vai para acabar e sem deixar grandes saudades, digo eu. Uma torrente de mexidas na cena política (nacional e internacional), mas nenhuma mudança (e sublinho a palavra). A lenta agonia da Europa e dos europeus extravasou o domínio da conjetura e tornou-se facto consumado (a Grécia foi só o abrir do alçapão) e eis-nos a duvidar do euro, da União, do federalismo, dos falsos líderes, das boas intenções e dos maus projetos… Cameron foi nem sequer o primeiro a mostrá-lo!
Espanha e Portugal viraram ao mesmo tempo à direita (já tinha acontecido na era de Aznar e Barroso), sob o espectro de um colapso financeiro que atormenta o patronato e os bancos e, só depois deles, o cidadão comum, habituado a que lhe gamem na boa os derradeiros cêntimos. Já assistimos a coisas iguais no passado, exceto no tocante à ideia de que agora o mundo tal como o conhecíamos vai ruindo. E vai ruindo porque a Europa, os EUA e até o Japão (para quem 2011 ficará também guardado no baú das memórias difíceis) deixaram de mandar no Globo (se é que algum dia nele mandaram mesmo) e têm agora que contar com a concorrência de países até aqui periféricas (com a China, a Índia e o Brasil à cabeça). Que o poder económico mudou de mãos ninguém tem dúvidas. O político é só uma questão de tempo…
Mas 2011 é também o ano da «Primavera Árabe». Primeiro na Tunísia, depois do Egito, Síria, Iémen e Líbia (em Marrocos também se escaramuçou qualquer coisinha) ficaram a ferro e fogo, numa manifestação de subversão popular como não a víramos antes naquela região. O aluvião popular trouxe a Irmandade Muçulmana para o topo das preferências, no meio da esperança de democratização pedida pelo povo árabe. A ver vamos…
E por falar em manifestações, o que dizer dos Indignados? 2011 é o ano deles também. Um pouco por todo o mundo civilizado, cresceu o descontentamento e a revolta (da Plaza del Sol à Wall Street), justificando aliás a preciosa escolha da revista Time, que na sua edição elegeu uma manifestante e uma legenda eloquentes («Protester») para ilustrar o sinal dos tempos. O século XXI candidata-se ao título de «O século do tudo por tudo». E a Time, julgo bem, deu conta do princípio do fim de muita coisa… do velho mundo, digamos.
2011 foi o ano da Wilileaks de Julian Assenge e dos escândalos (de um Chirac condenado e a um Strauss-Khan, não falando do inveterado Berlusconi), foi o ano da queda de Kadafi (do fim da caçada a Bin-Laden), ou dos crimes violentos de cariz xenófobo em países tidos por pacatos, como a Noruega de Breivik, ou a Bélgica de Nordine Amrani.
Por cá, o ano fica marcado pelo fim da era Sócrates. As mentiras e trapalhadas do antigo Primeiro-Ministro cansaram o sossegado povo de Portugal, que, perante a ameaça bem real de bancarrota e consequente pedido de ajuda internacional, decidiu por fim mandá-lo para França, estudar Filosofia. Quem ficou no lugar dele tem feito o que se esperava que fizesse: desbaratar o pouco que havia restava das chamadas «conquistas de Abril». Acabado o bolo, só a côdea nos bastará e mesmo ela sujeita a pesadas tributações. Para nós, portugueses, 2011 é o ano zero da crise (daqui para a frente entramos em território de números negativos, como no mais pitoresco dos invernos nórdicos, de quem nos vamos, assim, assemelhar).
Se alguma coisa fica deste famigerado ano é a sensação de que algo começou a mudar e muito rapidamente, algo como se caminhássemos devagar… em cima de um tapete rolante a alta velocidade.
