O pior que pode suceder a um país como o nosso — em crise, podre por dentro e por fora — o pior não o anunciou ontem o PM (Boaventura de Sousa Santos chamou-lhe há pouco, no noticiário da SIC, o «anúncio de um processo de subdesenvolvimento do país»). O pior que pode suceder a Portugal é a convicção que se generaliza entre nós de caminharmos para um beco sem saída. É discrepância entre o ter que e o querer que, certos que estamos da ilegitimidade das exigências coletivas que nos são feitas, para crimes que não cometemos e que deixam os seus autores tão impunes, quanto ufanos!
Os portugueses, habituados (desde a constituição genética) às crises económicas, ao cavalgar da corrupção, à imoralidade das suas leis e tribunais, aos excessos da suas euforias e disforias, os portugueses sabem que isto é mais do mesmo; sabem antecipadamente que hão afundar-se devagar no lodaçal; sabem que a crise de agora é de resolução lenta e que dará tempo para preparar o mal que havemos transmitir às gerações futuras (o descrédito numa sociedade pautada por padrões de civilidade e exigência, o salve-se quem puder, o desejo de cada qual se safe por um ou outro corredor de esperteza, por este ou aquele mecanismo de usurpação); sabem que não há em nós o mesmo sentido de sacrifício de alemães, americanos ou japoneses.
O pior do país é a sua funda e surda hipocrisia. É o pronunciar a história dos seus heróis populares, enquanto entrega o ouro a bandidos de luvas e cartola. O pior do país é a impunidade, a falta de rigor e de exemplaridade moral, é a incapacidade de promover as suas leis, aplicando-as aos prevaricadores. Um tal país deixa-se à mercê da implosão social, ao rebuço da dignidade que não tem.
O pior do país são os Albertos Joães e os Oliveiras e Costas, os Sócrates e os Dias Loureiros. O mal do país é a falta de autoridade dos seus magistrados e o engagement político-financeiro dos seus agentes decisórios (essa medusa que mexe na penumbra e que associa a uma Mota Engil, a uma Caixa Geral de Depósitos, a um REN ou a uma Portugal Telecom ex e futuros ministros e secretários de estado). O mal do país é, em suma, o país ter sobre si mesmo esta tão viva consciência da sua podridão. Porque Portugal assemelha-se a um fantoche, a um Pinóquio de grandes proporções, que soubesse ser manietado por dentro e por força, por dedos que são ao mesmo tempo seus e alheios, leais e perversos.
O Pinóquio vai agora aprender a olhar para dentro, num ato de contrição que terá, necessariamente, consequências a longo, longuíssimo prazo. Não sei se a ironia dos nossos grandes escritores (de Camilo a Agustina, de Eça a Saramago, de Gil Vicente a Lobo Antunes) valeu a pena. Pela literatura sim, pelo resto é o que se vê. Tudo igual em tudo diferente. “Coragem Portugueses, só vos faltam as qualidades.”, dizia Almada. E tinha toda a razão…
