Depois do massacre de Anders Breivik na Noruega, voltam os europeus a questionar-se socraticamente quanto ao trilho a seguir e quanto à identidade do continente, tão parecido ele é com um poço de morte, onde rodopiam e se atropelam ideologias, crenças, línguas e valores.
Breivik matou por acreditar numa Europa limpa de islâmicos. Noutros extremos, os seguidores de Maomé matam para expugar da terra o infiel. Entre o fundamentalismo de uns e o ódio de outros, sacode-se a sociedade em tremores homicidas, descrente de um projeto realmente comum e multiétnico.
Não posso estar de acordo com a extrema-direita europeia, cuja virulência vem crescendo de dia para dia, mas tão pouco me deixa sossegado o crescente número de cidadãos orientais (islâmicos incluídos) a quem a nossa cultura pouco importa e cujos padrões de vida se pautam por um exacerbamento da sua cultura de origem, em total desrespeito pela cultura de acolhimento.
Breivik é um extremista, estamos de acordo. Mas o fundamento da sua ação assemelha-se à de um Carlos Martel, à de um Urbano II, ou à de um Afonso Henriques, cuja visão ideológico-militar passou pela eliminação do inimigo muçulmano, a bem da Europa. Nada justifica o atentado racista de Breivik, como nada justifica, por exemplo, o assassínio de Mohammed Bouyeri, que em 2005 atacou Theo van Gogh por motivações religiosas e fanáticas) ou a resposta irracional contra os caricaturistas dinamarqueses, a começar censura dentro de portas. Se é verdade que Anders Breivik mostrou como pode ser perigosa a reação da extrema-direita, a verdade é que ela vinha sendo anunciada e, receio bem, não ficará por aqui, mercê de um sentimento de desconfiança e de um impulso de retaliação sobre a cultura islâmica, há muito rotulada de violenta e incapaz de se abrir a outras culturas. A intolerância de uns é a intolerância de outros.
A Europa que eu sempre admirei é a tolerante, a iluminista, a artística, a espiritual. Mas essa solavanca e parece condenada a implodir sob o efeito perverso das suas múltiplas forças antagónicas. Talvez os atentados da Noruega sejam o vislumbre de uma cadeia de ataques e contra-ataques futuros, cada qual motivado pelo instintivo direito da autodefesa. A questão é somente uma: serão os europeus capazes de encontrar o limite que separa a autodefesa da agressão pura e simples? E, mais que encontrá-lo, serão eles capazes de respeitá-lo e defendê-lo?
Tal como numa caminhada de funâmbulo, qualquer distração nesta questão é inevitavelmente fatal. E os políticos que agora criticam a extrema-direita e lastimam a obra de Breivik bem podem fazer mais que usar de retórica e de diplomacia fútil. A Europa precisa de líderes e eles precisam de aprender a sê-lo de uma vez por todas, a bem da harmonia e do respeito mútuo…
